Loucos
sois vos, e Deus? Deus esta morto. Já estava morto na criação, nos setes dias
em que enquanto sombra de uma soberaneidade, arquejou a sátira da humanidade,
não senhores, não mais que peças do tabuleiro, para que ele em sua eternidade
tediosa pudesse jogar os dados com o demônio, sua criação mais poderosa. Loucos!
Vos e suas famílias, vos e sua sociedade, que se ocupam comigo e pra que? Pra
que meu Deus? O que faz uma pobre mulher que sangra por Eva para merecer essa
tortura mental, Por moral e por ética? Futilidades que temos construído sobre
areia e que a cada revolução tem seu grito de dor abafado por um novo fôlego de
ilusão? Acusam-me e devoram-me por ódio? O que faz de mim merecedora de tanto
tormento? Acaso eu perturbei vossos filhos e vossos santos na casa de seu pai?
[...]
[...]
Amarram-me os pés como escrava e me dirigem
perguntas que obviamente não sei responder, ainda que a febre me tome consuma a
última gota de lucidez que, por deus, ainda me sobra... Eis o deus que vos
podem controlar, vosso sistema jurídico que por nome tem Crime e por sátira
Castigo, por crime e castigo senhores, por pouco e tão pouco que já nem sabem
mensurar que em vossos cárceres habitam apenas almas pobres e famintas que
atentaram contra vossa soberana Propriedade.
És
tão grande vossa embriagues e tão profundo vosso mergulho em vosso próprio
vomito que me tens aqui, pobre sangue e pobre carne, conjurada a receber
torturas em nome de vossa ocupação, vossa distração, para que não vejam e nem
sintam os fios tendenciosos que lhes amarram os membros, as mentes e os pintos,
marionetes patéticas.
Carlos
morreu em agosto de 1955, em qualquer tarde em que não bastou a porra do
trabalho, horas gastas em outro qualquer escritório de advocacia, de
procedimentos repetitivos, tolos, tediosos e mal pagos. Não bastaram os carros,
relógios, e sapatos Le Mont de Paris, com sua tão rasa e amarga futilidade, mas
ainda assim tão densa profundidade em seus pares. Não bastou religião, magia ou
ciência que lhe prometeram heranças futuras, prováveis milagres de um
alquimista insanamente mentiroso. Não, não bastou se quer seu amor por mim que
dizia-se eterno e forte, escrito por seres superiores no livro da vida em
rebeldia aos principados e potestades.
É
essa falta senhores! Essa percepção da sede que mata e amarga os homens, sede
que seduziu Dostoiévski e o que levou aos braços da loucura, sede que
transpassou a lucidez de Tolstoi atirando-o solitário e medigante em uma estação
de trem, também qualquer. E assim Mahatma Gandhi, morto por seu deus chamado
Paz, Luther King por um deus chamado Raça e Mariguella pelo deus da liberdade.
Essa sede que a vos bem convém chamar loucura, ronda como sombra cada
existência, e de modos indistintos levam todos aos precipícios do sentido, em
breves, tão breves instantes da morte, porque para nós cristãos “a morte é a
vida e a vida a loucura”.
Todos
somos loucos “excelências”, e na explosão de nossas loucuras estrupamos
crianças, espancamos nossas mulheres, prostituímos nossos corpos, redigimos
constituições impotentes, alistamo-nos em exércitos revolucionários e por fim,
nos rendemos aos braços, doces e suaves da morte, que é deste ponto de vista, a
vida... Os que percebem a mediocridade
da vida e a rejeitam são os prováveis herdeiros de uma vida medíocre. Piada de
mal gosto.
Sim senhores, piada,
materializada em vossos cárceres que também estão cheios de loucos que por
exprimirem a mesma sede e falta que a tantos atormenta, foram condenados a
manicômios, dopados e eletrocutados. E é a mim que cabe vosso julgo e castigo?
Que fiz eu comparado a vossos crimes e ilusões? É disso que me acusam? De ser louca como vos mesmo são? Teria eu mérito
e cumplicidade com uma percepção que não é matéria, mas antes essência de uma
programação divina? Posso eu já condenada a sexualidade feminina, eu que condenada
por Eva a sangrar podre pela mesma boceta em que antes, chupavam-me homens e
mulheres amantes do gozo e do orgasmo influenciar
no jogo que permite a uns a graça da ignorância e a outros a tragédia da
clareza?
Carlos,
como todos os outros, morreu no mesmo dia em que percebeu que estava com
sede... que não bastava a vida, os pulmões e as primaveras, e que nada há de
doce aparte da vida intensa, doce intensidade... e como todos, Carlos iniciou
sua jornada a loucura, o sintoma da morte anunciada, mas a cada um cabe um
nome, a cada um o seu caminho, ainda que a todos um só destino.
Dançamos valsa aquela noite, e,
por um instante sentimos que havia algo, uma
Engano, maldito engano, ópio de merda.
Engano, maldito engano, ópio de merda.
Quando
o olhei pela última vez, como em um último fôlego de vida estava cego, era
Lazaro voltando para a tumba fedida de onde não lhe consultaram a saída.
Ninguém jamais resistiu, partir é a condição de existir neste caso. Me tocou os
braços com seus braços, e entre os pelos entrecruzaram-se pelos, e entre curvas
se adornaram-se curvas, e entre espaços se converteram carne, sangue e calor.
Não, não houve despedida, apenas um breve espaço de tempo, apenas palavras
oprimidas por um momento em que a despedida, seja ela a mais breve das ditas,
não diz mais que breve, breve, e até breve!
Voltei
a vê-lo dois anos depois, definhando. Sentia seu mal cheiro, cheiro de podre,
de carne morta rejeitada pelos urubus mais carniceiros. Haviam-lhe ceifado a
última gota de vida, já não lhe restava nada, nem pelos, curvas ou espaços
ainda que breves... apenas carne, sangue e fedor. Na tabula rasa em que se
hospeda o tabuleiro da vida marcou-se mais um ponto por algum deus torpe,
embriagado de sátira e nojo por sua criação deformada. Lia-se a bíblia naqueles
dias de luto branco, “eu não vim trazer a paz, eu vim trazer a espada” como se
nós não tivéssemos vivido em toda nossa vã existência sob o peso da espada.
Não
senhores, eu não culpo vos se não pelo crime que cometem contra mim aqui e
agora, ainda que vossos crimes não sejam passivos de castigo. Foi Deus senhores
que atentou-se contra Carlos em sua tola desobediência. Recebi-o morto e
cheirando a merda, mudo, concentrado em sua decadência animal.
Do
meu marido não existia nada se não pele e osso, sua luz, sua bonita luz que
iluminava todos que com ele compartilharam dias, apagou-se, mergulhada no mais
profundo abismo da alma humana, e eu, na minha condição de impotência, tive por
obrigação do destino que acompanhar a sua decadência, ver pois a luz de seus
olhos se apagando enquanto melancolicamente mergulhava neste abismo chamado
desconhecido.
Ouçam
quando eu digo e acreditem bando de loucos... para aqueles em que o cotidiano
se torna inferno, melhor seria o próprio inferno que a obrigação de viver uma
vida vã.
Eu
podia, eu podia sentir, era agradavelmente doce, como eram doces os momentos
juvenis de amigos, conversas e cigarros de maconha. A sensação velada
escondia-se de mim por instantes quase que eternos, como que se brincasse
comigo em um parque amigavelmente deserto. O medo pouco a pouco substituído
pela curiosidade e por cócegas, sim cócegas, cócegas internas que apalpavam
meus pulmões ameaçando subir pelo coração e garganta até que vomitasse as mais
divinas gargalhadas. Corri de um lado para outro, enquanto carro-céu que segue
eternamente para o futuro, futuro tão eterno quanto é eterno o carro-céu, que
conosco tinha em comum não chegar e não querer chegar como quem não quer ir a
lugar nenhum porque para quem não sabe para onde vai, qualquer lugar esta bom, o que importa, o que verdadeiramente importa é
aquela sensação maravilhosa de brisa fresca que se sente enquanto se caminha e
se sonha que isto é tudo e nada mais há. Como sorri, como fui amada por este
anjo doce que brincou comigo como criança, como um guarda espiritual
acalentando um coração partido e sangrento. A dor passava enquanto mergulhava
nos braços azuis e macios daquela sensação sem nome que me tomava. Tinha as
extremidades do corpo tomadas, se quer podia meche-las adequadamente como
quando deixamos pernas sobre pernas até que adormeçam seus músculos e tendões. Amava
aquela alucinação, espiritualidade elevada e não definsa.
Ilusão! Ilusão Porra! Fraqueza de
uma humanidade platônica.
“De repente e não mais que de
repente” aquela sensação misteriosa foi se tornando amarga, não, não, azeda,
azeda e amarga, tornando a boca seca e tão seca que mordia canibalmente minhas
gengivas na esperança de que o sangue alimentasse minha língua para então
gritar em castigo, uma vez mais a podridão da Providência. Inutilmente, por
maior que fosse a hemorragia meus lábios secos racharam e me encontrei no chão,
tremendo, epilética... dali podia ver apenas o pé da pia, sabia que estava na
cozinha pois tinha sido Carlos que remendara aquele apoiador com fitas e colas
grosseiramente. O chão estava sujo, comida e pó misturavam-se em uma podridão
de pelo menos duas semanas, comparável apenas com a podridão que podia sentir
dentro de minha própria alma. Passaram-se várias horas, até que destemidas
baratas saíram de todos os cantos, frestas das paredes, canos, orifícios do
chão e janelas, amontoando-se naquela sujeira como amontoam-se os sobreviventes
das grandes tragédias, em uma dança pela sobrevivência tão ferós que comiam-se
umas as outras... o nojo tomou-me por completo quando voltei a sentir úmida
novamente minha seca boca, mas úmida de vomito e nojo. O vomito espalhou-se
pelo meu rosto e tive que olhar tão somente olhar na plenitude de minha
incapacidade de locomoção, o sentido atento das baratas sujas que alimentadas
pelo cheiro do meu vomito voltam-se e se precipitaram em minha direção.
Gritei
até que sangrasse a garganta, mas não havia som, forcei os braços até quebrar a
clavícula mas nenhum movimento dali se constatou, chorei e orei uma última vez
como o homem que clama a Providência ainda que saiba que ela não exista, ou que
ela apenas não se importa. As baratas sujas e carniceiras devoravam meu vômito
e à medida que comiam aproximavam-se da minha boca, não demorou até que se
atrevessem a entrar e... entraram, entraram em minha boca devorando tudo que
podiam com suas tortas bocas devorar, vomito, língua, amídalas, a garganta e
depois os pulmões, o estomago, útero e por fim o fígado, saindo pela minha
vagina para depois retornar ao inicio até que não sobrace mais nada.
Silêncio,
o nojo de tudo que vi ainda me tomava, mas fazia silêncio, na morte eu já podia
acreditar porque por certo estava morta e continuavam ainda as baratas a
devorar-me. A exaustão me tomou e a febre abraçou-me, ainda assim só podia
pensar em todo aquele silêncio. Deus sabe quanto tempo aquilo durou, meses?
Anos ou toda uma eternidade? De resto lembro apenas que estava escuro, sentia
nojo e lembrava-me da dor que provocaram as baratas, do cheiro de vomito, da
minha incapacidade de mover-me, tudo durou tanto tempo que perdi a consciência
sabendo que permanecia acordada.
Quando
acordei, tinha Carlos em meus braços, mas não sabia mais o que era sonho, morte
ou vida, apenas o tinha, estávamos os dois ali, juntos uma vez mais como que
lutando contra o destino anjos em rebeldia atestassem aquele último instante de
nós. Apesar de toda incompreensão eu sabia que era um instante, um instantes
destes referidos por Neruda, alguma coisa preciosa, que não retorna, não se
repete, findo como a chama, mas interminável enquanto dura.
Eu
o tinha e agora podia entendê-lo, podia senti-lo, podia mergulhar no seu abismo
profundo e recolher em minhas pequenas mãos sua velha luz que outrora afundara
e apagara-se. A claridade tomou-me como um raio, já não era mais eu quem me
habitava, eu era compreensão e compreensão tornara-se minha essência mais
profunda. Podia entende-lo e perdoá-lo e a medida que o perdoava mais o podia
compreender. Senti o cheiro de seu espírito quando a vida um dia não mais
bastava. E via as cores de sua alma quando partiu em busca, em busca de uma
busca tão profunda que se quer compreendia de que se tratava. Mas... “de
repetente e não mais que de repente” o enredo viciado de nossas tragédias
voltou a exigir seu lugar na cena.
Era
o cheiro de sua angustia, o gosto amargo de sua alma, a densidade podre de seus
gritos abafados que agora entrincheiravam-se em minhas sensações. Não ele, mas sua sombra que se apresentava,
estremecendo minhas pernas e me fazendo desejar voltar ao vomito e as baratas.
Podia vê-lo e percebê-lo em sua essência, e ela, era negra e vulgar, em seus
olhos não havia amor, mas o desejo de poder tomar meu próprio corpo condenando
assim a minha alma em seu lugar. Sua alma não estava morta, estava assombrada.
Era
Carlos, era Carlos quem estava ali. Carlos em seu próprios cárceres, tomado da
podridão de seu próprio carrasco, era vomito e ódio, desprezo e luxuria, era a
imagem e mais que imagem a semelhança pura e indistinta de Deus.
Carlos?
Carlos? Pobre Carlos, pobre calos! Filho do demônio e amante dos deuses. Preso,
preso, em uma solitária onde os ratos são legiões de demônios famintos. Intensidade,
intensidade, é preciso buscar intensidade, é preciso exaltar o mais alto
sentido da vida, é preciso viver, viver, viver. Loucos, loucos e insanos, vos
que me acusam de loucura, são loucos crucificando por crimes da loucura.
Cúmplices do jogo entre deus e o diabo, marionetes patéticas que se dedicam a
sua própria escravidão, querem vos a maldita herança de Carlos, desejam
intimamente seu coma, sua podridão eterna. Eu vi, vi sua alma, vi seu coração,
sua dor, seu lamento que ecoa na vastidão dos precipícios da alma, sentia-se
morto, morto e sujo. Nada, nem mesmo a vida mais medíocre era menos desejada
que aquilo. Aquilo que vos denominaram coma, como denominaram a falta loucura,
denominam agora o mais maléfico dos cárceres!
Pensam
que não sei do jogo? Pensam que não sei da aposta de um dólar por nossas almas?
Eu sei, eu sei que querem nos enganar, conheço-vos no intimo dos íntimos. São
vos a mais alta burguesia, são donos das terras, donos das prensas, são arautos
das cortes capitalistas, donos do mundo e senhores dos homens. E eu, eu que
unicamente sou quem vos conhece sei, que a meu marido desejam ofertar a fome
insaciável das baratas. E “... uma vez que a ordem do mundo é regulada pela
morte, talvez seja melhor para Deus que não se acredite nele, e que se lute com
todas as forças contra a morte, sem levantar os olhos para o céu, onde Ele se
cala”
Nenhum comentário:
Postar um comentário