sexta-feira, 27 de abril de 2012

O Contrato da Sátira


          Loucos sois vos, e Deus? Deus esta morto. Já estava morto na criação, nos setes dias em que enquanto sombra de uma soberaneidade, arquejou a sátira da humanidade, não senhores, não mais que peças do tabuleiro, para que ele em sua eternidade tediosa pudesse jogar os dados com o demônio, sua criação mais poderosa. Loucos! Vos e suas famílias, vos e sua sociedade, que se ocupam comigo e pra que? Pra que meu Deus? O que faz uma pobre mulher que sangra por Eva para merecer essa tortura mental, Por moral e por ética? Futilidades que temos construído sobre areia e que a cada revolução tem seu grito de dor abafado por um novo fôlego de ilusão? Acusam-me e devoram-me por ódio? O que faz de mim merecedora de tanto tormento? Acaso eu perturbei vossos filhos e vossos santos na casa de seu pai?
[...]
          Amarram-me os pés como escrava e me dirigem perguntas que obviamente não sei responder, ainda que a febre me tome consuma a última gota de lucidez que, por deus, ainda me sobra... Eis o deus que vos podem controlar, vosso sistema jurídico que por nome tem Crime e por sátira Castigo, por crime e castigo senhores, por pouco e tão pouco que já nem sabem mensurar que em vossos cárceres habitam apenas almas pobres e famintas que atentaram contra vossa soberana Propriedade.
          És tão grande vossa embriagues e tão profundo vosso mergulho em vosso próprio vomito que me tens aqui, pobre sangue e pobre carne, conjurada a receber torturas em nome de vossa ocupação, vossa distração, para que não vejam e nem sintam os fios tendenciosos que lhes amarram os membros, as mentes e os pintos, marionetes patéticas.
          Carlos morreu em agosto de 1955, em qualquer tarde em que não bastou a porra do trabalho, horas gastas em outro qualquer escritório de advocacia, de procedimentos repetitivos, tolos, tediosos e mal pagos. Não bastaram os carros, relógios, e sapatos Le Mont de Paris, com sua tão rasa e amarga futilidade, mas ainda assim tão densa profundidade em seus pares. Não bastou religião, magia ou ciência que lhe prometeram heranças futuras, prováveis milagres de um alquimista insanamente mentiroso. Não, não bastou se quer seu amor por mim que dizia-se eterno e forte, escrito por seres superiores no livro da vida em rebeldia aos principados e potestades.
           É essa falta senhores! Essa percepção da sede que mata e amarga os homens, sede que seduziu Dostoiévski e o que levou aos braços da loucura, sede que transpassou a lucidez de Tolstoi atirando-o solitário e medigante em uma estação de trem, também qualquer. E assim Mahatma Gandhi, morto por seu deus chamado Paz, Luther King por um deus chamado Raça e Mariguella pelo deus da liberdade. Essa sede que a vos bem convém chamar loucura, ronda como sombra cada existência, e de modos indistintos levam todos aos precipícios do sentido, em breves, tão breves instantes da morte, porque para nós cristãos “a morte é a vida e a vida a loucura”.
          Todos somos loucos “excelências”, e na explosão de nossas loucuras estrupamos crianças, espancamos nossas mulheres, prostituímos nossos corpos, redigimos constituições impotentes, alistamo-nos em exércitos revolucionários e por fim, nos rendemos aos braços, doces e suaves da morte, que é deste ponto de vista, a vida...  Os que percebem a mediocridade da vida e a rejeitam são os prováveis herdeiros de uma vida medíocre. Piada de mal gosto.
          Sim senhores, piada, materializada em vossos cárceres que também estão cheios de loucos que por exprimirem a mesma sede e falta que a tantos atormenta, foram condenados a manicômios, dopados e eletrocutados. E é a mim que cabe vosso julgo e castigo? Que fiz eu comparado a vossos crimes e ilusões? É disso que me acusam?  De ser louca como vos mesmo são? Teria eu mérito e cumplicidade com uma percepção que não é matéria, mas antes essência de uma programação divina? Posso eu já condenada a sexualidade feminina, eu que condenada por Eva a sangrar podre pela mesma boceta em que antes, chupavam-me homens e mulheres amantes do gozo e do orgasmo  influenciar no jogo que permite a uns a graça da ignorância e a outros a tragédia da clareza?
          Carlos, como todos os outros, morreu no mesmo dia em que percebeu que estava com sede... que não bastava a vida, os pulmões e as primaveras, e que nada há de doce aparte da vida intensa, doce intensidade... e como todos, Carlos iniciou sua jornada a loucura, o sintoma da morte anunciada, mas a cada um cabe um nome, a cada um o seu caminho, ainda que a todos um só destino.
          Dançamos valsa aquela noite, e, por um instante sentimos que havia algo, uma           
          Engano, maldito engano, ópio de merda.
          Quando o olhei pela última vez, como em um último fôlego de vida estava cego, era Lazaro voltando para a tumba fedida de onde não lhe consultaram a saída. Ninguém jamais resistiu, partir é a condição de existir neste caso. Me tocou os braços com seus braços, e entre os pelos entrecruzaram-se pelos, e entre curvas se adornaram-se curvas, e entre espaços se converteram carne, sangue e calor. Não, não houve despedida, apenas um breve espaço de tempo, apenas palavras oprimidas por um momento em que a despedida, seja ela a mais breve das ditas, não diz mais que breve, breve, e até breve!
          Voltei a vê-lo dois anos depois, definhando. Sentia seu mal cheiro, cheiro de podre, de carne morta rejeitada pelos urubus mais carniceiros. Haviam-lhe ceifado a última gota de vida, já não lhe restava nada, nem pelos, curvas ou espaços ainda que breves... apenas carne, sangue e fedor. Na tabula rasa em que se hospeda o tabuleiro da vida marcou-se mais um ponto por algum deus torpe, embriagado de sátira e nojo por sua criação deformada. Lia-se a bíblia naqueles dias de luto branco, “eu não vim trazer a paz, eu vim trazer a espada” como se nós não tivéssemos vivido em toda nossa vã existência sob o peso da espada.
           Não senhores, eu não culpo vos se não pelo crime que cometem contra mim aqui e agora, ainda que vossos crimes não sejam passivos de castigo. Foi Deus senhores que atentou-se contra Carlos em sua tola desobediência. Recebi-o morto e cheirando a merda, mudo, concentrado em sua decadência animal.
          Do meu marido não existia nada se não pele e osso, sua luz, sua bonita luz que iluminava todos que com ele compartilharam dias, apagou-se, mergulhada no mais profundo abismo da alma humana, e eu, na minha condição de impotência, tive por obrigação do destino que acompanhar a sua decadência, ver pois a luz de seus olhos se apagando enquanto melancolicamente mergulhava neste abismo chamado desconhecido.
         Ouçam quando eu digo e acreditem bando de loucos... para aqueles em que o cotidiano se torna inferno, melhor seria o próprio inferno que a obrigação de viver uma vida vã.
          Eu podia, eu podia sentir, era agradavelmente doce, como eram doces os momentos juvenis de amigos, conversas e cigarros de maconha. A sensação velada escondia-se de mim por instantes quase que eternos, como que se brincasse comigo em um parque amigavelmente deserto. O medo pouco a pouco substituído pela curiosidade e por cócegas, sim cócegas, cócegas internas que apalpavam meus pulmões ameaçando subir pelo coração e garganta até que vomitasse as mais divinas gargalhadas. Corri de um lado para outro, enquanto carro-céu que segue eternamente para o futuro, futuro tão eterno quanto é eterno o carro-céu, que conosco tinha em comum não chegar e não querer chegar como quem não quer ir a lugar nenhum porque para quem não sabe para onde vai, qualquer lugar esta bom,  o que importa, o que verdadeiramente importa é aquela sensação maravilhosa de brisa fresca que se sente enquanto se caminha e se sonha que isto é tudo e nada mais há. Como sorri, como fui amada por este anjo doce que brincou comigo como criança, como um guarda espiritual acalentando um coração partido e sangrento. A dor passava enquanto mergulhava nos braços azuis e macios daquela sensação sem nome que me tomava. Tinha as extremidades do corpo tomadas, se quer podia meche-las adequadamente como quando deixamos pernas sobre pernas até que adormeçam seus músculos e tendões. Amava aquela alucinação, espiritualidade elevada e não definsa.  
               
          Ilusão! Ilusão Porra! Fraqueza de uma humanidade platônica.

          “De repente e não mais que de repente” aquela sensação misteriosa foi se tornando amarga, não, não, azeda, azeda e amarga, tornando a boca seca e tão seca que mordia canibalmente minhas gengivas na esperança de que o sangue alimentasse minha língua para então gritar em castigo, uma vez mais a podridão da Providência. Inutilmente, por maior que fosse a hemorragia meus lábios secos racharam e me encontrei no chão, tremendo, epilética... dali podia ver apenas o pé da pia, sabia que estava na cozinha pois tinha sido Carlos que remendara aquele apoiador com fitas e colas grosseiramente. O chão estava sujo, comida e pó misturavam-se em uma podridão de pelo menos duas semanas, comparável apenas com a podridão que podia sentir dentro de minha própria alma. Passaram-se várias horas, até que destemidas baratas saíram de todos os cantos, frestas das paredes, canos, orifícios do chão e janelas, amontoando-se naquela sujeira como amontoam-se os sobreviventes das grandes tragédias, em uma dança pela sobrevivência tão ferós que comiam-se umas as outras... o nojo tomou-me por completo quando voltei a sentir úmida novamente minha seca boca, mas úmida de vomito e nojo. O vomito espalhou-se pelo meu rosto e tive que olhar tão somente olhar na plenitude de minha incapacidade de locomoção, o sentido atento das baratas sujas que alimentadas pelo cheiro do meu vomito voltam-se e se precipitaram em minha direção.
          Gritei até que sangrasse a garganta, mas não havia som, forcei os braços até quebrar a clavícula mas nenhum movimento dali se constatou, chorei e orei uma última vez como o homem que clama a Providência ainda que saiba que ela não exista, ou que ela apenas não se importa. As baratas sujas e carniceiras devoravam meu vômito e à medida que comiam aproximavam-se da minha boca, não demorou até que se atrevessem a entrar e... entraram, entraram em minha boca devorando tudo que podiam com suas tortas bocas devorar, vomito, língua, amídalas, a garganta e depois os pulmões, o estomago, útero e por fim o fígado, saindo pela minha vagina para depois retornar ao inicio até que não sobrace mais nada.
          Silêncio, o nojo de tudo que vi ainda me tomava, mas fazia silêncio, na morte eu já podia acreditar porque por certo estava morta e continuavam ainda as baratas a devorar-me. A exaustão me tomou e a febre abraçou-me, ainda assim só podia pensar em todo aquele silêncio. Deus sabe quanto tempo aquilo durou, meses? Anos ou toda uma eternidade? De resto lembro apenas que estava escuro, sentia nojo e lembrava-me da dor que provocaram as baratas, do cheiro de vomito, da minha incapacidade de mover-me, tudo durou tanto tempo que perdi a consciência sabendo que permanecia acordada.
          Quando acordei, tinha Carlos em meus braços, mas não sabia mais o que era sonho, morte ou vida, apenas o tinha, estávamos os dois ali, juntos uma vez mais como que lutando contra o destino anjos em rebeldia atestassem aquele último instante de nós. Apesar de toda incompreensão eu sabia que era um instante, um instantes destes referidos por Neruda, alguma coisa preciosa, que não retorna, não se repete, findo como a chama, mas interminável enquanto dura.
           Eu o tinha e agora podia entendê-lo, podia senti-lo, podia mergulhar no seu abismo profundo e recolher em minhas pequenas mãos sua velha luz que outrora afundara e apagara-se. A claridade tomou-me como um raio, já não era mais eu quem me habitava, eu era compreensão e compreensão tornara-se minha essência mais profunda. Podia entende-lo e perdoá-lo e a medida que o perdoava mais o podia compreender. Senti o cheiro de seu espírito quando a vida um dia não mais bastava. E via as cores de sua alma quando partiu em busca, em busca de uma busca tão profunda que se quer compreendia de que se tratava. Mas... “de repetente e não mais que de repente” o enredo viciado de nossas tragédias voltou a exigir seu lugar na cena.
          Era o cheiro de sua angustia, o gosto amargo de sua alma, a densidade podre de seus gritos abafados que agora entrincheiravam-se em minhas sensações.  Não ele, mas sua sombra que se apresentava, estremecendo minhas pernas e me fazendo desejar voltar ao vomito e as baratas. Podia vê-lo e percebê-lo em sua essência, e ela, era negra e vulgar, em seus olhos não havia amor, mas o desejo de poder tomar meu próprio corpo condenando assim a minha alma em seu lugar. Sua alma não estava morta, estava assombrada.
          Era Carlos, era Carlos quem estava ali. Carlos em seu próprios cárceres, tomado da podridão de seu próprio carrasco, era vomito e ódio, desprezo e luxuria, era a imagem e mais que imagem a semelhança pura e indistinta de Deus.
          Carlos? Carlos? Pobre Carlos, pobre calos! Filho do demônio e amante dos deuses. Preso, preso, em uma solitária onde os ratos são legiões de demônios famintos. Intensidade, intensidade, é preciso buscar intensidade, é preciso exaltar o mais alto sentido da vida, é preciso viver, viver, viver. Loucos, loucos e insanos, vos que me acusam de loucura, são loucos crucificando por crimes da loucura. Cúmplices do jogo entre deus e o diabo, marionetes patéticas que se dedicam a sua própria escravidão, querem vos a maldita herança de Carlos, desejam intimamente seu coma, sua podridão eterna. Eu vi, vi sua alma, vi seu coração, sua dor, seu lamento que ecoa na vastidão dos precipícios da alma, sentia-se morto, morto e sujo. Nada, nem mesmo a vida mais medíocre era menos desejada que aquilo. Aquilo que vos denominaram coma, como denominaram a falta loucura, denominam agora o mais maléfico dos cárceres!
          Pensam que não sei do jogo? Pensam que não sei da aposta de um dólar por nossas almas? Eu sei, eu sei que querem nos enganar, conheço-vos no intimo dos íntimos. São vos a mais alta burguesia, são donos das terras, donos das prensas, são arautos das cortes capitalistas, donos do mundo e senhores dos homens. E eu, eu que unicamente sou quem vos conhece sei, que a meu marido desejam ofertar a fome insaciável das baratas. E “... uma vez que a ordem do mundo é regulada pela morte, talvez seja melhor para Deus que não se acredite nele, e que se lute com todas as forças contra a morte, sem levantar os olhos para o céu, onde Ele se cala” 

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